No início de 2026, o Brasil parou para acompanhar o drama do jovem Roberto, que desapareceu durante a descida do Pico Paraná (o ponto mais alto do Sul do país, com 1.877m). Foram 5 dias de angústia, uma operação massiva do Corpo de Bombeiros (GOST) e centenas de voluntários.
Felizmente, o desfecho foi positivo: ele foi encontrado vivo. Mas, para a comunidade de montanhismo e sobrevivencialismo, este incidente acendeu um alerta vermelho. Não foi apenas “azar”. Foi uma sucessão de falhas de protocolo que quase custou uma vida.
Neste artigo, vamos dissecar o caso (respeitosamente) para extrair lições vitais. Se você faz trilhas, seja no Pico Paraná ou na colina atrás da sua casa, precisa entender onde a aventura virou pesadelo.
O Cenário: A Montanha Não Perdoa
O Pico Paraná (PP) não é um passeio no parque. É uma montanha técnica, com terreno acidentado, clima que muda em minutos e trilhas que exigem navegação visual constante. O erro número 1 de muitos iniciantes é subestimar a montanha baseando-se em fotos do Instagram. Lá em cima, a neblina transforma o paraíso em um labirinto branco em segundos.
A Análise dos Erros (O Efeito Dominó)
Na aviação e no sobrevivencialismo, dizemos que um acidente nunca tem uma causa única; é uma cadeia de eventos. No caso do Pico Paraná, identificamos a quebra de três regras sagradas:
1. A Quebra da “Canga” (Never Split the Party)
A regra de ouro das Forças Especiais e dos montanhistas é: Ninguém fica para trás. Relatos indicam que houve uma separação entre o jovem e sua dupla. No montanhismo, a velocidade do grupo é determinada pelo integrante mais lento.
- A Lição: Se seu parceiro está cansado, você para. Se ele precisa voltar, você volta junto. Abandonar um parceiro visualmente, mesmo que por “alguns minutos”, é a receita para o desastre em terreno de mata fechada.
2. Navegação e Equipamento
O jovem perdeu óculos e botas, o que indica uma luta física severa contra o terreno. Mas o ponto crítico é a Navegação.
- A Lição: Em 2026, depender apenas da memória ou de fitas na árvore é suicídio. O uso de Mapas Offline (como OsmAnd) ou um GPS dedicado é obrigatório. Se ele tivesse um rádio comunicador configurado no Protocolo 3-3-3, o resgate poderia ter ocorrido em horas, não dias.
3. A Falta do “Kit de 72 Horas”
Muitos trilheiros de “ataque” (bate e volta) levam apenas uma garrafinha de água e um casaco leve. Se você torcer o pé e tiver que passar a noite, você congela.
- A Lição: Mesmo para trilhas de um dia, leve sempre um cobertor de emergência (mylar), uma lanterna extra e um apito. O apito é a ferramenta de sinalização mais subestimada do mundo: o som viaja muito mais longe que o grito humano e gasta menos energia.
Como Ele Sobreviveu? (Os Acertos)
Apesar dos erros, Roberto fez algo certo: ele manteve a vontade de viver.
- Movimento Constante (Controverso): Embora a regra geral seja “se perder, pare”, ele buscou uma saída seguindo cursos d’água (tática arriscada, mas que funcionou neste caso específico para encontrar fazendas na base).
- Hidratação: Ele bebeu água de rio. Em uma situação de vida ou morte, o risco de infecção (giárdia) é secundário à morte por desidratação. Ele escolheu viver.
O Protocolo S.T.O.P.: O Que Fazer se Você se Perder?
Se a neblina baixar e você não souber onde está, não corra. Use o protocolo mental:
- S (Sit) – Sente-se: Acalme a adrenalina. O pânico mata mais rápido que o frio.
- T (Think) – Pense: De onde você veio? Quanto tempo de luz ainda tem?
- O (Observe) – Observe: Tem algum ponto de referência? Tem abrigo próximo?
- P (Plan) – Planeje: Se for tarde, prepare-se para passar a noite. Se tiver apito, use-o (3 silvos curtos = pedido de socorro universal).
Conclusão: A Montanha Exige Humildade
O incidente do Pico Paraná serve como um lembrete brutal de que a natureza é indiferente ao nosso sofrimento. Ela não liga se você é jovem, forte ou inexperiente.
Ser um “preparador” não é apenas estocar comida em casa; é ter a mentalidade de que, ao cruzar o limite da civilização para a mata, você é o único responsável pela sua vida e pela vida da sua dupla.
Que este caso sirva de aprendizado. Prepare sua mochila, cheque a previsão do tempo e, acima de tudo, nunca abandone seu parceiro.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O mínimo indispensável (Os 10 Essenciais):
1. Navegação (Celular com mapa offline + Power Bank).
2. Lanterna de cabeça (Headlamp) com pilhas extras.
3. Proteção solar/óculos.
4. Primeiros Socorros básico (incluindo remédio para dor e antialérgico).
5. Faca ou canivete.
6. Fogo (Isqueiro + Isca).
7. Abrigo de emergência (Saco de bivaque ou cobertor aluminizado).
8. Comida extra (calorias densas).
9. Água extra (ou filtro portátil).
10. Roupa extra (Anorak/Corta-vento).
É intermitente. No cume, às vezes pega sinal de algumas operadoras, mas nos vales e na mata fechada, é zona morta. Jamais confie no celular como única forma de comunicação.
Essa é uma regra antiga que deve ser usada com cautela. Rios descem a montanha e levam à civilização, MAS também levam a cachoeiras mortais e cânions sem saída. Seguir o rio é a última opção se você não espera resgate. A primeira opção é ficar parado em local visível e sinalizar.
